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18/04/2011

Governança e boas práticas passam a influir nas decisões de investimento

Ainda é difícil avaliar precisamente o quanto a adesão às melhores práticas de governança corporativa se reflete no preço das ações. Segundo Lucy Souza, presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais - Apimec Nacional, a governança é relevante, mas ainda não está dentro de uma valorização quantitativa (valuation) e nem favorece um deságio no custo de capital. "Mas no caso contrário, empresas que não tenham boa governança, mesmo aquelas que eventualmente possam estar com um bom preço alvo ou valor econômico, é possível que fiquem fora das recomendações dos analistas", distingue Lucy.
De modo geral as empresas com boa governança e sustentabilidade empresarial têm apresentado uma melhor valorização na bolsa. Em março companhias que compõem o Indice de Governança Corporativa (IGC) tiveram variação positiva de 2,91% e as que integram o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) subiram 3,82%, para uma variação de 1,79% do Ibovespa. Nos últimos 12 meses a variação do ISE chega a 10,07% e a do IGC a 8,73, frente a queda de 2,54% do Ibovespa.
Hoje das 465 empresas listadas na bolsa, 174 já adotam a algum nível de governança, sendo 118 no Novo Mercado, 17 no Nível 2 e 39 no Nível 1. E a tendência é que este número cresça, já que desde 2001 os novos IPOs exigem a adesão a pelo menos um dos níveis. Além disso, a autorregulação da Anbima determina que os bancos associados só podem fazer emissão de valores mobiliários de empresas comprometidas com boas práticas.
Desde 2006 a maior parte tem optado por ir direto para o Novo Mercado. No ano passado apenas um IPO não foi para o nível máximo de governança. Para Carlos Roberto Rebelo Sobrinho, diretor de relações com emissores da BM&FBovespa, a recente adesão da Ultrapar ao Novo Mercado vai ser um grande divisor e um caso referencial não só por sua dimensão, mas porque a empresa está abrindo mão de ter um controle concentrado para ter um controle difuso e apenas ações ordinárias e sem mesmo um interesse imediato numa eventual captação." Eles estão pagando este preço porque entendem que o mercado vai enxergar um valor melhor para a empresa", diz.
Segundo Gilberto Carvalho, professor de governança corporativa do Ibmec Rio e conselheiro profissional, há o movimento das empresas que genuinamente cultivam a governança como cultura empresarial, adotando os melhores preceitos de transparência, prestação de contas, equidade e conformidade legal, os princípios básicos do modelo. E também as que aderiram aos níveis apenas para cumprir os requisitos legais. Carvalho está elaborando uma pesquisa sobre quantas empresas adotam conselhos fiscais ativos, que não são obrigatórios, mas demonstram uma boa prática. E é possível que o número surpreenda.
"O investidor não aceita mais investir em empresas que não tenham boas práticas e está disposto a pagar mais. O IPO da Natura, em 2004, foi um marco e teve uma captação recorde, porque a empresa antes mesmo da abertura de capital já havia introduzido uma série de mecanismos governança. E acabou estimulando outras empresas", observa Heloisa Bediks, superintendente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
Mas se implementar boas práticas quando tudo é um céu de brigadeiro, já é um desafio, o que dizer no caso de empresas com reputação comprometida. Este é o desafio vivido hoje pela Laep Investment, empresa de private equity que adquiriu a Parmalat e a Daslu, ambas envolvidas em escândalos e em liquidação judicial. Além desses são vários os estigmas a serem contornados. A empresa tem sede nas Bermudas, é listada em Luxemburgo com BDRs no Brasil, apesar de ter 70% de seus ativos em território brasileiro. Este formato só foi possível porque foi adotado antes da edição da instrução CVM 480 de 2009, que determina que empresas só podem emitir BDR se 50% de seus ativos estiverem fora do país.
Segundo Rodrigo Ferraz, presidente da Laep, a Parmalat foi adquirida com passivos cíveis de R$ 2 bilhões, e trabalhistas de R$ 8 milhões, além de autos de infração tributária de R$ 20 bilhões. Ele diz que a lei determina que empresas que adquirem companhias em liquidação judicial não sucedem os passivos. Mas a Laep decidiu se antecipar e discutir o mérito antes que recebesse autos de infração milionários. Os cerca de 10 mil credores foram pagos e a empresa derrubou uma cobrança tributária de R$ 15 bilhões. O capital da Parmalat foi fechado pois quase não havia ações em bolsa. Mas como administrador da empresa ele acumulou três processos criminais e teve a conta bloqueada 20 vezes.
"Com isso fica difícil encontrar no mercado diretores estatutários para as empresas, o que complica a gestão e compromete a governança corporativa. Apesar disso, como companhia aberta que somos, temos procurado adotar práticas de governança com membros independentes no conselho e abstenção de voto do controlador em matérias do seu interesse como a emissão que fizemos em meados de janeiro", conclui.

FONTE: Valor Econômico

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